terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um dia de José! (Primeiro conto de José)



Um dia bem cansado, querendo eu ficar de pé, foi um episodio muito engraçado, mas houveram risos de má fé. Num daqueles dias mal criados, acordara eu, o tal José, nem feio nem bonito, apenas um qualquer, apenas um José. –Por hora já me basta de poesia, acredito que você, caro leitor, já se encontra impaciente diante de tantas rimas para minha introdução, pois bem, que seja! Vamos ao fato então; Ah! Quando lembro eu daqueles risos, claro que fico irritado, mas de fato foi engraçado; –Calma amigo impaciente narrarei para ti o ocorrido.

Ocorreu que certo dia, eu, José, acordei bem cedo como de costume e ao banheiro fui me assear, tive uma péssima noite de sono e o espelho me refletiu largas olheiras que tornavam minha imagem lúgubre como a de um moribundo. Após lavar-me fui à cozinha preparar o café, pois é, eu não tenho mulher; para um homem como eu é difícil encontrar uma parceira, não entendo as mulheres, dou-lhes tudo que sempre quiseram e ainda assim não se dão por satisfeitas. Parece-me que querem mesmo é me ter em cativeiro como um passarinho, sempre acabo desistindo de entender e, por conseguinte de querer. Como havia lhes dito no principio, nem sou feio nem bonito, alto e delgado, feições comuns, a pele dourada pelo ardor do sol, a única coisa que adorna minha aparência são minhas vestimentas das quais tenho muito gosto.

Ao preparar minha primeira refeição diurna dei-me por falta de laranjas; gostara sempre de um café da manhã saudável e frugal. Fui à quitanda comprar algumas laranjas. Lá chegando a primeira que vi foi Dona Cida, uma senhora trabalhadora que nunca negara sua responsabilidade por preguiça, todos os dias antes do sol raiar estava ela lá a por suas frutas frescas a vista dos fregueses.

–Bom dia Dona Cida, disse ao encontrá-la.
–Muito bom dia José, em que posso ajudá-lo?
–Sabe, estou a sofrer de uma terrível falta de laranjas para o desjejum.
–Ora, não seja tão dramático. –Ria-se ela enquanto me ajeitava as laranjas numa sacola.

Mas Dona Cida tinha um grave defeito que as mulheres da feira costumam ter, era maroca! Não uma simples fofoqueira, mas um verdadeiro jornal popular, de tudo e sobre todas as pessoas, algo Dona Cida sabia. Logo ao me entregar a sacola, veio me rodeando com aquele ar de curiosidade que fazia questão de demonstrar, levantando a sobrancelha como quem observa e ao mesmo tempo julga. Vinha ela me sondar, mas mal sabia ela que eu já sabia de suas artimanhas e pior que isso de sua fama que, com frequência era lembrada no calçadão da feira.

–Meu bom rapaz, ainda não achara uma boa moça para casamento? Pergunta ela bem diretamente.
–As mulheres são como um afresco, obras de arte divinais e monumentais construídas pela natureza, mas ao mesmo tempo são como uma caixa de Pandora, quem sabe que segredos lhes habitam o coração, fui lhe dizendo, mas ela parecia não entender-me.
–Dona Cida, quando a implacável hora do matrimonio vier a cair sobre mim fique certa de que saberá!

Dito isso me despedi e deixei a senhora fofoqueira aparentemente curiosa a meu respeito, pois a muito me conhecia, mas pouco sabia de minha vida, sempre procurei ser integro e reservado no que diz respeito a minha intimidade. Voltei para casa perdido nas palavras que eu mesmo havia dito e na inquisição da senhora, caminhava lentamente pela rua na sombra das árvores e acompanhado pelo chiado dos pássaros estive perdido, absorto em meus pensamentos, foi quando a vi, a misteriosa moça, cuja identidade, para mim, era totalmente desconhecida.

Uma mulher sem igual, de uma beleza fresca como um botão de rosa que acabara de desabrochar, sua pele parecia macia como a seda, seus longos cabelos negros contrastavam na brancura da pele, seu rosto tinha a doçura de anjo barroco e seu olhar profundo e verde tinha um ar misterioso, sua boca entreaberta era carnuda e levemente corada, uma mulher que despertaria em qualquer homem um desejo abrasador e comigo não foi diferente, fiquei extasiado. Na tentativa de descobrir sobre a moça fui apressadamente atravessando a rua, o que para meu infortúnio foi um verdadeiro desastre. Na maldita, porém, justificada pressa que me levou ao desconcerto, tive não mais que poucos segundos, não foi o suficiente para alguma reação. A sacola me escapuliu da mão, foi quando as laranjas ralaram pelo chão. –Eis que você já deve ter notado amigo leitor, o desastre que houve. Naquele momento rápido ao dar um simples passo tive o azar de acertar uma laranja que rolava e essa única laranja me levou desastrosamente rumo ao chão.

Que cena desconcertante; a rua inteira viu o que aconteceu, muitos comentários e risos ecoaram ao mesmo tempo e eu continuei ali inerte e inconsolável sob a vista dos lindos e profundos olhos verdes daquela moça. Foi quando percebi que seu semblante, diferente dos outros, estava sério e poderia ser até minha imaginação, mas garanto que pude notar certo ar de incomodo pela chacota que faziam de mim. Fiquei ali sentado no chão olhando-a e ela me encarando, senti-me tomado pela vergonha e o rubor tomou toda minha face. Para minha incrível surpresa a moça caminhou ate mim, estávamos a pouco mais que cinco metros de distancia um do outro, ela me estendeu a mão e ajudou-me a levantar. Enquanto recolhia as laranjas caídas, percebi que as pessoas ao redor de súbito se calaram como uma orquestra que cessa ao sinal do maestro.

–Que inoportuno para o senhor, vivenciar uma cena dessas em meio a esses abutres. –Disse-me ela com um doce sorriso nos lábios.
–Não ligo para o fato dado o resultado. Posso acompanhar-te? Senhorita... Perguntei-lhe rapidamente.
–Ora mil perdões! Chamo-me Erika. –Disse-me ela inclinando a mão.

Disse-lhe meu nome e beijei sua mão coberta por uma fina luva de rendas e bordados, ela aceitou meu pedido e saímos caminhando pela calçada. Eu caminhava com passos de tartaruga tentando alongar o máximo possível aquele momento, enquanto isso, as fofocas tomaram conta da rua dado o improvável resultado da minha sena cômica, ao virar a cabeça vi ao longe Dona Cida com um longo sorriso no rosto e um olhar maldoso que prometia noticiar-me qualquer fato referente à moça na próxima vez que a visitasse. Alguns rapazes que me viam acompanhando-a pareciam desferir-me um olhar de desdém. Apesar de protelar o máximo possível o fim de nosso encontro, acompanhei-a por pouco tempo, pois logo nossos caminhos se dividiram. estive receoso e pouco consegui com a conversa que tivemos, sinto que ela abriga ainda segredos que não pude desvelar nesse curto encontro que tivemos. Despedi-me dela e agradeci pela ajuda, ela riu e disse-me até mais. Voltei para casa desolado, imaginando quando ou se a veria novamente. –Mas esse meus amigos é outro capítulo!