Um
dia bem cansado, querendo eu ficar de pé, foi um episodio muito engraçado, mas
houveram risos de má fé. Num daqueles dias mal criados, acordara eu, o tal
José, nem feio nem bonito, apenas um qualquer, apenas um José. –Por hora já me
basta de poesia, acredito que você, caro leitor, já se encontra impaciente
diante de tantas rimas para minha introdução, pois bem, que seja! Vamos ao fato
então; Ah! Quando lembro eu daqueles risos, claro que fico irritado, mas de
fato foi engraçado; –Calma amigo impaciente narrarei para ti o ocorrido.
Ocorreu
que certo dia, eu, José, acordei bem cedo como de costume e ao banheiro fui me
assear, tive uma péssima noite de sono e o espelho me refletiu largas olheiras
que tornavam minha imagem lúgubre como a de um moribundo. Após lavar-me fui à
cozinha preparar o café, pois é, eu não tenho mulher; para um homem como eu é
difícil encontrar uma parceira, não entendo as mulheres, dou-lhes tudo que
sempre quiseram e ainda assim não se dão por satisfeitas. Parece-me que querem
mesmo é me ter em cativeiro como um passarinho, sempre acabo desistindo de
entender e, por conseguinte de querer. Como havia lhes dito no principio, nem
sou feio nem bonito, alto e delgado, feições comuns, a pele dourada pelo ardor
do sol, a única coisa que adorna minha aparência são minhas vestimentas das
quais tenho muito gosto.
Ao
preparar minha primeira refeição diurna dei-me por falta de laranjas; gostara sempre
de um café da manhã saudável e frugal. Fui à quitanda comprar algumas laranjas.
Lá chegando a primeira que vi foi Dona Cida, uma senhora trabalhadora que nunca
negara sua responsabilidade por preguiça, todos os dias antes do sol raiar
estava ela lá a por suas frutas frescas a vista dos fregueses.
–Bom
dia Dona Cida, disse ao encontrá-la.
–Muito
bom dia José, em que posso ajudá-lo?
–Sabe,
estou a sofrer de uma terrível falta de laranjas para o desjejum.
–Ora,
não seja tão dramático. –Ria-se ela enquanto me ajeitava as laranjas numa
sacola.
Mas
Dona Cida tinha um grave defeito que as mulheres da feira costumam ter, era
maroca! Não uma simples fofoqueira, mas um verdadeiro jornal popular, de tudo e
sobre todas as pessoas, algo Dona Cida sabia. Logo ao me entregar a sacola,
veio me rodeando com aquele ar de curiosidade que fazia questão de demonstrar,
levantando a sobrancelha como quem observa e ao mesmo tempo julga. Vinha ela me
sondar, mas mal sabia ela que eu já sabia de suas artimanhas e pior que isso de
sua fama que, com frequência era lembrada no calçadão da feira.
–Meu
bom rapaz, ainda não achara uma boa moça para casamento? Pergunta ela bem
diretamente.
–As
mulheres são como um afresco, obras de arte divinais e monumentais construídas
pela natureza, mas ao mesmo tempo são como uma caixa de Pandora, quem sabe que
segredos lhes habitam o coração, fui lhe dizendo, mas ela parecia não
entender-me.
–Dona
Cida, quando a implacável hora do matrimonio vier a cair sobre mim fique certa
de que saberá!
Dito
isso me despedi e deixei a senhora fofoqueira aparentemente curiosa a meu
respeito, pois a muito me conhecia, mas pouco sabia de minha vida, sempre
procurei ser integro e reservado no que diz respeito a minha intimidade. Voltei
para casa perdido nas palavras que eu mesmo havia dito e na inquisição da
senhora, caminhava lentamente pela rua na sombra das árvores e acompanhado pelo
chiado dos pássaros estive perdido, absorto em meus pensamentos, foi quando a
vi, a misteriosa moça, cuja identidade, para mim, era totalmente desconhecida.
Uma
mulher sem igual, de uma beleza fresca como um botão de rosa que acabara de
desabrochar, sua pele parecia macia como a seda, seus longos cabelos negros
contrastavam na brancura da pele, seu rosto tinha a doçura de anjo barroco e
seu olhar profundo e verde tinha um ar misterioso, sua boca entreaberta era
carnuda e levemente corada, uma mulher que despertaria em qualquer homem um
desejo abrasador e comigo não foi diferente, fiquei extasiado. Na tentativa de
descobrir sobre a moça fui apressadamente atravessando a rua, o que para meu
infortúnio foi um verdadeiro desastre. Na maldita, porém, justificada pressa
que me levou ao desconcerto, tive não mais que poucos segundos, não foi o suficiente
para alguma reação. A sacola me escapuliu da mão, foi quando as laranjas
ralaram pelo chão. –Eis que você já deve ter notado amigo leitor, o desastre
que houve. Naquele momento rápido ao dar um simples passo tive o azar de
acertar uma laranja que rolava e essa única laranja me levou desastrosamente rumo
ao chão.
Que
cena desconcertante; a rua inteira viu o que aconteceu, muitos comentários e
risos ecoaram ao mesmo tempo e eu continuei ali inerte e inconsolável sob a
vista dos lindos e profundos olhos verdes daquela moça. Foi quando percebi que
seu semblante, diferente dos outros, estava sério e poderia ser até minha
imaginação, mas garanto que pude notar certo ar de incomodo pela chacota que
faziam de mim. Fiquei ali sentado no chão olhando-a e ela me encarando,
senti-me tomado pela vergonha e o rubor tomou toda minha face. Para minha incrível
surpresa a moça caminhou ate mim, estávamos a pouco mais que cinco metros de
distancia um do outro, ela me estendeu a mão e ajudou-me a levantar. Enquanto
recolhia as laranjas caídas, percebi que as pessoas ao redor de súbito se
calaram como uma orquestra que cessa ao sinal do maestro.
–Que
inoportuno para o senhor, vivenciar uma cena dessas em meio a esses abutres. –Disse-me
ela com um doce sorriso nos lábios.
–Não
ligo para o fato dado o resultado. Posso acompanhar-te? Senhorita... Perguntei-lhe
rapidamente.
–Ora
mil perdões! Chamo-me Erika. –Disse-me ela inclinando a mão.
Disse-lhe
meu nome e beijei sua mão coberta por uma fina luva de rendas e bordados, ela
aceitou meu pedido e saímos caminhando pela calçada. Eu caminhava com passos de
tartaruga tentando alongar o máximo possível aquele momento, enquanto isso, as
fofocas tomaram conta da rua dado o improvável resultado da minha sena cômica,
ao virar a cabeça vi ao longe Dona Cida com um longo sorriso no rosto e um
olhar maldoso que prometia noticiar-me qualquer fato referente à moça na
próxima vez que a visitasse. Alguns rapazes que me viam acompanhando-a pareciam
desferir-me um olhar de desdém. Apesar de protelar o máximo possível o fim de
nosso encontro, acompanhei-a por pouco tempo, pois logo nossos caminhos se
dividiram. estive receoso e pouco consegui com a conversa que tivemos, sinto
que ela abriga ainda segredos que não pude desvelar nesse curto encontro que
tivemos. Despedi-me dela e agradeci pela ajuda, ela riu e disse-me até mais.
Voltei para casa desolado, imaginando quando ou se a veria novamente. –Mas esse
meus amigos é outro capítulo!