I. A trilha do corvo
Erick Silva
Tenho
que contar para você o que me aconteceu, foi essa manhã logo cedo, não entendi
muito bem a principio, mas ainda assim foi uma curiosa e esplendida
experiência, não há como não contar, pois cada detalhe estarrecedor dessa
aventura só de lembrar me deixa arrepiado.
Lembro-me de estar dormindo, decerto
realmente o estivesse, pois nunca se abre os olhos sem antes tê-los fechado não
é mesmo? Mas o estranho é que logo que recobro a consciência, percebo que não
estou em meu leito habitual nem tão pouco em qualquer outro conhecida. De olhos
já bem abertos percebi uma nevoa sombria que se estendia pelo imenso vale onde
nada se ouvia. De imediato foi assustador, mas como não sabia onde estava e nem
tão pouco como sair de lá, resolvi me aventurar e explorar o lugar.
Levantei-me, estava contemplando aquela
cena quase imóvel e ainda sentando onde estive antes adormecido, meu olhar
curioso percorreu minuciosamente cada centímetro de tudo que me cercava, senti
mais segurança e assim comecei a caminhada em meio ao desconhecido pensando:
onde estou? Que lugar é esse? Quando escuto um barulho estridente que tanto me
assusta quanto me deixa maravilhado, ao olhar para os céus, admirado contemplo
o causador de tal barulho, um corvo, mas não qualquer corvo e sim um corvo
branco, com apenas uma pena preta em seu peito, seus olhos eram vermelhos e me
encararam familiarmente, como se já ali estivesse a esperar por mim e soubesse
quem sou, e como que preso em uma ilusão estive paralisado admirando-o, mas o
pássaro simplesmente me encarou, ele virou a cabeça e voou imponentemente
através da nevoa e esta se abria totalmente ao bater de asas da magnifica
criatura.
Senti que a criatura sabia quem eu era e
também o que eu sentia, como se entre nós houvesse uma ligação e ele visse
todos os meus anseios e desejos. Percebi que ficou parado num dos galhos de uma
das varias arvores sem folhas daquele vale, mais adiante, ele queria que eu o
seguisse, eu o sabia instintivamente e me perguntei como, mas não encontrei uma
resposta plausível o que me deixou ainda mais intrigado com aquele misterioso
acontecimento. Segui-o então e percebi depois de uns duzentos metros de
percurso ao escutar novamente o grasnar da ave que seus olhos já não eram mais
escarlates, mas sim negros e escuros como a noite, tentei imaginar como isso
era possível, mas sem nenhuma resposta em minha mente apenas continuei a
segui-lo admirado com as sombras em volta e a profundidade do vale.
Em certo ponto da longa caminhada escuto
um barulho familiar, um rio, uma pequena cachoeira talvez, mas ao tentar sair
da trila do corvo as sombras das arvores se mexiam de forma estranha como se
estivessem vivas e desejassem meu sangue, me assustei, engoli a seco e voltei à
trilha rapidamente, quando percebi novamente o barulho do corvo, e ele agora
não apenas estava com os olhos negros, agora também mais penas pretas
apareceram manchando sua imaculada brancura, o que deveras me deixou muito
intrigado e assustado. Me senti preso a uma interminável partida de chaturanga[1]
sem conseguir identificar quais critérios devia obedecer.
Eu apenas
continuo seguindo pelo caminho do pássaro, a jornada apesar de longa não me
deixava cansado nem sedento e quando preso absorto em meus devaneios, paro e me
dou conta que a ave desaparecera, penso: para onde foi? O que queria de mim? Me
posicionei de cócoras e estive dessa forma apavorado, pois estava novamente
sozinho e sem saber o que fazer nem para onde ir é quando uma lagrima escorre
pelo meu rosto. Novamente escuto o grasnar, rapidamente levando a cabeça em
busca da localização do corvo e quando o acho me surpreendo mais do que de
todas as outras vezes, pois agora a ave não mais era branca, agora era
totalmente preta e a pena preta em seu peito ficara vermelha como sangue e
tinha um brilho fugaz que só era perceptível quando ele fazia leves movimentos.
Notei que
dessa vez estava pousada sobre um galho mais baixo e a suas costas havia uma
imensa sombra, me aproximei e vi que seu peito começou a brilhar intensamente
onde havia a pena carmesim, tentei tocar a ave ela permaneceu imóvel e de seu
peito me apareceu um cabo, eu o agarro e puxo uma longa katana de lamina
vermelha saia de seu peito e quando consegui ver a ponta da espada o corvo
libera seu ultimo e mais temível grasnado quando se desfaz em penas que voam ao
meu redor e são levadas lentamente pelo vento, quanto a pena vermelha eu
percebi que pendia como ornamento do cabo da espada e mantinha o mesmo brilho
ardente e agora mais que antes.
Senti então,
nesse momento, que devia lutar contra algo, com a arma em punho me dirigi
lentamente ao fim do vale onde as sobras reinavam imperiosas, senti um terrível
arrepio que quase congelou minha espinha e novamente senti a sede se sangue das
sombras que se mexiam silenciosas, quando então vi uma sombra maior, um homem
talvez, mas fugiu inusitadamente quando eu acreditava que seria meu oponente,
nesse momento o vale perde seu aspecto mais sombrio, então, vejo inúmeras
gaiolas presas umas as outras e dentro delas inúmeras aves lindíssimas as quais
eu jamais havia visto antes, talvez aves do paraíso, tão belas que nem me
pareciam ser reais, a pena que pendia do cabo da katana começou a brilhar mais
intensamente, abri todos os cadeados brandindo a espada que produzia um som
parecido com o grasnar do corvo, libertando todos os pássaros que voaram em
direção ao céu num rebanho magnifico e por onde voavam traziam brilho, luz e
beleza, contemplando aquilo estarrecido fecho meus olhos e abro os braços
sentindo uma imensa nostalgia, senti um leve desconforto e abri os olhos
novamente, notei que estava em casa deitado em minha cama, levantei-me de
súbito e minha cama estava repleta de penas negras.
Depois de tudo
ainda continuo acreditando que nada foi apenas um sonho, como poderia?
[1] Chaturanga é um antigo jogo de tabuleiro indiano que se acredita ter originado o Jogo de Xadrez, o Shogi e o Makruk, e é relacionado com o Xiang Qi (ou Janggi). Surgiu provavelmente no Século VI d.C., sendo considerado o predecessor do Shatranj que, por sua vez, veio a originar o xadrez moderno.
PS: Este conto foi produzido antes de o blog ser lançado, mas o mantive longe das páginas do blog por um tempo, até decidir que estava em tempo mostrar um pouco mais além de "José".