domingo, 12 de maio de 2013

O Vale Taciturno


I. A trilha do corvo

Erick Silva

Tenho que contar para você o que me aconteceu, foi essa manhã logo cedo, não entendi muito bem a principio, mas ainda assim foi uma curiosa e esplendida experiência, não há como não contar, pois cada detalhe estarrecedor dessa aventura só de lembrar me deixa arrepiado.

Lembro-me de estar dormindo, decerto realmente o estivesse, pois nunca se abre os olhos sem antes tê-los fechado não é mesmo? Mas o estranho é que logo que recobro a consciência, percebo que não estou em meu leito habitual nem tão pouco em qualquer outro conhecida. De olhos já bem abertos percebi uma nevoa sombria que se estendia pelo imenso vale onde nada se ouvia. De imediato foi assustador, mas como não sabia onde estava e nem tão pouco como sair de lá, resolvi me aventurar e explorar o lugar.
Levantei-me, estava contemplando aquela cena quase imóvel e ainda sentando onde estive antes adormecido, meu olhar curioso percorreu minuciosamente cada centímetro de tudo que me cercava, senti mais segurança e assim comecei a caminhada em meio ao desconhecido pensando: onde estou? Que lugar é esse? Quando escuto um barulho estridente que tanto me assusta quanto me deixa maravilhado, ao olhar para os céus, admirado contemplo o causador de tal barulho, um corvo, mas não qualquer corvo e sim um corvo branco, com apenas uma pena preta em seu peito, seus olhos eram vermelhos e me encararam familiarmente, como se já ali estivesse a esperar por mim e soubesse quem sou, e como que preso em uma ilusão estive paralisado admirando-o, mas o pássaro simplesmente me encarou, ele virou a cabeça e voou imponentemente através da nevoa e esta se abria totalmente ao bater de asas da magnifica criatura.
Senti que a criatura sabia quem eu era e também o que eu sentia, como se entre nós houvesse uma ligação e ele visse todos os meus anseios e desejos. Percebi que ficou parado num dos galhos de uma das varias arvores sem folhas daquele vale, mais adiante, ele queria que eu o seguisse, eu o sabia instintivamente e me perguntei como, mas não encontrei uma resposta plausível o que me deixou ainda mais intrigado com aquele misterioso acontecimento. Segui-o então e percebi depois de uns duzentos metros de percurso ao escutar novamente o grasnar da ave que seus olhos já não eram mais escarlates, mas sim negros e escuros como a noite, tentei imaginar como isso era possível, mas sem nenhuma resposta em minha mente apenas continuei a segui-lo admirado com as sombras em volta e a profundidade do vale.
Em certo ponto da longa caminhada escuto um barulho familiar, um rio, uma pequena cachoeira talvez, mas ao tentar sair da trila do corvo as sombras das arvores se mexiam de forma estranha como se estivessem vivas e desejassem meu sangue, me assustei, engoli a seco e voltei à trilha rapidamente, quando percebi novamente o barulho do corvo, e ele agora não apenas estava com os olhos negros, agora também mais penas pretas apareceram manchando sua imaculada brancura, o que deveras me deixou muito intrigado e assustado. Me senti preso a uma interminável partida de chaturanga[1] sem conseguir identificar quais critérios devia obedecer.
Eu apenas continuo seguindo pelo caminho do pássaro, a jornada apesar de longa não me deixava cansado nem sedento e quando preso absorto em meus devaneios, paro e me dou conta que a ave desaparecera, penso: para onde foi? O que queria de mim? Me posicionei de cócoras e estive dessa forma apavorado, pois estava novamente sozinho e sem saber o que fazer nem para onde ir é quando uma lagrima escorre pelo meu rosto. Novamente escuto o grasnar, rapidamente levando a cabeça em busca da localização do corvo e quando o acho me surpreendo mais do que de todas as outras vezes, pois agora a ave não mais era branca, agora era totalmente preta e a pena preta em seu peito ficara vermelha como sangue e tinha um brilho fugaz que só era perceptível quando ele fazia leves movimentos.
Notei que dessa vez estava pousada sobre um galho mais baixo e a suas costas havia uma imensa sombra, me aproximei e vi que seu peito começou a brilhar intensamente onde havia a pena carmesim, tentei tocar a ave ela permaneceu imóvel e de seu peito me apareceu um cabo, eu o agarro e puxo uma longa katana de lamina vermelha saia de seu peito e quando consegui ver a ponta da espada o corvo libera seu ultimo e mais temível grasnado quando se desfaz em penas que voam ao meu redor e são levadas lentamente pelo vento, quanto a pena vermelha eu percebi que pendia como ornamento do cabo da espada e mantinha o mesmo brilho ardente e agora mais que antes.
Senti então, nesse momento, que devia lutar contra algo, com a arma em punho me dirigi lentamente ao fim do vale onde as sobras reinavam imperiosas, senti um terrível arrepio que quase congelou minha espinha e novamente senti a sede se sangue das sombras que se mexiam silenciosas, quando então vi uma sombra maior, um homem talvez, mas fugiu inusitadamente quando eu acreditava que seria meu oponente, nesse momento o vale perde seu aspecto mais sombrio, então, vejo inúmeras gaiolas presas umas as outras e dentro delas inúmeras aves lindíssimas as quais eu jamais havia visto antes, talvez aves do paraíso, tão belas que nem me pareciam ser reais, a pena que pendia do cabo da katana começou a brilhar mais intensamente, abri todos os cadeados brandindo a espada que produzia um som parecido com o grasnar do corvo, libertando todos os pássaros que voaram em direção ao céu num rebanho magnifico e por onde voavam traziam brilho, luz e beleza, contemplando aquilo estarrecido fecho meus olhos e abro os braços sentindo uma imensa nostalgia, senti um leve desconforto e abri os olhos novamente, notei que estava em casa deitado em minha cama, levantei-me de súbito e minha cama estava repleta de penas negras.
Depois de tudo ainda continuo acreditando que nada foi apenas um sonho, como poderia?



[1] Chaturanga é um antigo jogo de tabuleiro indiano que se acredita ter originado o Jogo de Xadrez, o Shogi e o Makruk, e é relacionado com o Xiang Qi (ou Janggi). Surgiu provavelmente no Século VI d.C., sendo considerado o predecessor do Shatranj que, por sua vez, veio a originar o xadrez moderno.


PS: Este conto foi produzido antes de o blog ser lançado, mas o mantive longe das páginas do blog por um tempo, até decidir que estava em tempo mostrar um pouco mais além de "José".