terça-feira, 20 de maio de 2014

As formas na escuridão

         Estava escuro, estrelas pontuavam o céu. O dia ainda não havia dado início a sua jornada. O silencio se estendia continuo sendo interrompido apenas pelo barulho suave e distante do vento nas folhas das arvores. Seu peito se enchia e esvaziava lentamente, seu rosto macilento cintilava levemente na penumbra. Há algo no sono que infere nas pessoas uma pureza implacável, nenhum pecado, nenhum mal, nenhum sentimento ao menos, nada se esboça.
         A janela aberta permite que a brisa entre e desgrenhe seus cabelos. As horas pareciam preguiçosas e se demoravam a passar. "O que há nessa paz? Me inquieta ver essa expressão" pensei e viajei para dentro do mundo que a face calma escondia.
         Havia um céu nublado e uma densa floresta a qual margeava um rio, era possível ouvir o irromper de águas, uma magnifica cachoeira que brilhava pela exclusividade de um único raio de sol. Que cores magnificas, era um verdadeiro prisma! E o espectro tomava forma na nuvem de gotículas.
         Pela floresta seguia um caminho estreito e escuro. As folhas pelo caminho estavam afastadas, era sinal de que algo ou alguém ali passara. Seguindo adiante, as arvores de poucas folhas estavam cheias de corvos que apenas encaravam e pareciam acostumados a presença de visitantes. Ao longe era possível avistar uma forma sentada a beira do rio olhando para o espectro colorido e segurando em sua mão um botão de flor amarela.
         Seu olhar se voltou para o botão e ele permaneceu ali imóvel como se tempo não existisse, nada parecia abalar seu estado. Me aproximei e toquei em seu ombro e quando o fiz o botão esmaeceu e murchou em sua mão, o céu mudou de cor, tornara-se escuro como a noite, a cachoeira se congelou inteira e o único feixe de luz que iluminava aquele mundo apagara-se. As águas correntes do rio tornaram-se lisas e imóveis, era como um grande espelho refletindo a escuridão, a floresta atrás secara e os corvos voavam grasnando pelo céu como se algo os assustasse.
         Ele então se levantou e pulou na superfície fria e lisa da água e sumiu gradativamente dentro dela, o mundo inteiro se apagou e eu fiquei ali me tornando parte permanente daquela escuridão. Senti uma abrupta guinada, uma respiração ofegante e um barulho frenético, era um coração. Senti um terrível medo e parei de sentir pra ser sentido... 

Erick Silva